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sexta-feira, 13 de março de 2009

O abismo da corrupção


Triste, como alguém que não conhecia a regra para tal anúncio. E ali estava eu, diante de um corpo inerte. Ao lado, um buraco. Só um buraco foi suficiente para que a indesejada das gentes levassem a alma do executivo, do pai, do amigo, do esposo e do filho, tudo assim, em apenas um piscar de olhos e três metros de diâmetro.


Trinta e cinco anos, dois filhos, um amor, um trabalho. Três mil funcionários a sua espera, uma única reunião, a empresa, um obstáculo que não pôde ser desviado, o desfecho, um destino. Traumático destino, não dele, das autoridades responsáveis. Mas não, um trauma acarretaria uma consciência, um coração, o que existiu foram gélidos 32 milhões em verbas públicas sutilmente desviados. Um desvio inconsequente, uma consequência trágica. Aliás, uma não, várias.


Não é o primeiro nem será o último, foi apenas mais um. E o cenário se repete, alguns jornalistas, muitos curiosos, poucos realmente preocupados com a vida, ou com a falta de. O fotógrafo me chama, ali o trabalho está terminado. Só é um corpo, você já viu tantos!


Voltamos à redação, aqui a investigação começa. Uma colisão entre um Citroën C3 e um caminhão Volkswagem Modelo 14220 deixa uma vítima fatal e vários corações despedaçados, não há nada que mude o quadro ou que traga Roberto Silva de volta, isso mesmo, pasmem, ele tinha um nome, como tantos outros brasileiros que perdem suas vidas devido a omissão de pessoas que deveriam nos proteger. Afinal, para que serve um Estado e sua democracia? Para que pagamos impostos? De que adianta agora lamentar? Está sem jeito mesmo, “deixa como tá cumpade... o carnaval é mês que vem, ninguém vai lembrar mais”.


Mas jornalistas possuem fontes e, coincidentemente, do setor da administração pública surge a resposta: Oficialmente a rua está asfaltada, embora os moradores da localidade garantam que o buraco está ali há pelo menos dois anos e meio. Isso mesmo, dois anos, cento e oitenta e três dias e sete almas. Uma fórmula matemática nada agradável aos ouvidos do comando político que é muito pior que qualquer PCC.


Povo de memória fraca, com algum suborno no bolso esquerdo do paletó alugado e sete vidas esquecidas. O buraco, um abismo. Uma vida, outras tantas mais. Não foi coincidência! O executivo? Que executivo? O capitalismo dissipa as más lembranças, lembrar coisas tristes em tempos de carnaval não faz bem para os vivos. Os espectros já se foram por um tempo não muito longo. Tudo até que o próximo veículo esbarre em qualquer outra concavidade de uma rua asfaltada e que só os inteligentes podem ver.

Um comentário:

  1. Parabéns Fernanda, o texto sem dúvidas nos deixa uma grande reflexão.

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